Deitei logo após ler os teus diários. Estava cansada, claro; não é fácil ler a tua vida desse jeito; a verdade limpidamente turva, tal qual através de um vidro embassado por sua respiração ofegante, você sempre se debatendo. Sei o que estava passando ao escrever aquilo tudo; agora eu sei e sinto. Seu olhar apaixonado e suicida, o sangue que escorria das tuas palavras disfarçadas em flores. Continuei te amando, devo confessar que antes era mais fácil, com as coisas que você me dizia, tão belas mesmo quando rudes, mas agora acho que te amo até mais, se isso for possível, porque agora pude te perceber sem te idealizar - é possível não idealizarmos alguma vez? - Te amo e peço que por favor não se aborreça por eu ter vasculhado suas coisas sem antes pedir; entrar na sua vida, na sua privacidade com tanta intensidade – com você só poderia ser intenso – mas entenda que foi mero acaso; não resisti ao ver tua a vida tão devassada sobre a mesa. Quando me percebi já estava debruçada em suas alucinações e fui tomada por um encanto e também uma toxidez, náuseas e certa tontura provocadas sobretudo após aquela rigorosa manhã de inverno em que certas coisas foram definidas e outras queimadas - para salvar a infância das garras da verdade dura e honesta? Mas e quanto a infância que, nesse tempo, já havia sido brutalmente - e talvez inevitavelmente – reprimida? - O fogo como purificação; para quem partia naquele inverno ou para quem ficasse entre nós? “doce sangue na boca, / Sombra, / Um outro vôo”. Depois desse dia, Querida, “a noite inteira / Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva. / Os lençóis opressivos como beijos de um devasso”. “Bit my pretty red heart in two”.
Nesse mesmo dia em que pude ver o chão tão estrelado e um céu igualmente brilhante em meio a estrelas cadentes, em vários momentos, lá estava você em todas as coisas e na companhia de outros; nos olhares. Na lembraça que tenho do teu sorriso livre. “Radiação celestial”. Desejei, em cada toque, amar ao menos um pouco como você conseguia. Desejei sentir. Desejo ainda. Quem sabe te encontro depois que você ler essas palavras soltas. Pode confiar em mim.
Agora eu ouço algo que parece muito com você. Como um sonho que se repete, tal como ainda te sinto tão próximo. Ficaremos assim, então, eu por aqui ouvindo sua respiração e sentindo espasmos de sua ausência, porque te sinto mais hoje.
Está frio agora, por dentro. Escuro. Chove, “I can show you… Everything's the same… I`don`t mind… Shine, the weather's fine… Can you hear me that when it rains and shines… It's just a state of mind… Can you hear me, can you hear me?”
É bonito e difícil de expressar com palavras um pouquinho do que li , mas dá para sentir bem um pouco de tudo isso. É fácil alcançar suas palavras com o coração.
ResponderExcluir